17 fevereiro 2014
02 fevereiro 2014
A degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor
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Em 1920, o romancista inglês Arnold Bennett publicou uma coletânea de ensaios chamada "Nossas mulheres: capítulos sobre a discórdia entre os sexos", na qual defendia que "as" (artigo definido e no plural, enquanto o título apresenta o pronome possessivo) "mulheres" eram intelectualmente inferiores aos homens. Um dos argumentos era o de que o número de mulheres expoentes na literatura e artes em geral era muito inferior ao número de homens que se destacavam.
Para quem tem vontade de conhecer mais sobre críticas tecidas pela escritora a às condições dela enquanto mulher e escritora e sobre constrições sofridas por qualquer mulher de sua época, recomendo a leitura de "Profissões para mulheres e outros artigos feministas" (2012), publicado pela L&PM Pocket.
Em 1920, o romancista inglês Arnold Bennett publicou uma coletânea de ensaios chamada "Nossas mulheres: capítulos sobre a discórdia entre os sexos", na qual defendia que "as" (artigo definido e no plural, enquanto o título apresenta o pronome possessivo) "mulheres" eram intelectualmente inferiores aos homens. Um dos argumentos era o de que o número de mulheres expoentes na literatura e artes em geral era muito inferior ao número de homens que se destacavam.
Por sorte, Virginia Woolf já existia nessa época e não conseguiu se calar diante de tal afirmação.
Selecionei a última frase de uma
tréplica da escritora, publicada no jornal New Statement,
que, para mim, demonstra o quanto essa mulher foi sábia ao usar seu talento em se comunicar.
"(…) o que é necessário não é
apenas a educação. É que as mulheres tenham liberdade de experiência, possam
divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças (…); que
todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo
de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos
homens e, como eles, não precisem recear o ridículo e a condescendência. Essas
condições, a meu ver, muito importantes, são dificultadas por declarações como
as de Falcão Afável e Mr. Bennett, pois para um homem ainda é muito mais fácil
do que para uma mulher dar a conhecer suas opiniões e vê-las respeitadas. Não
tenho dúvidas de que, caso tais opiniões prevaleçam no futuro, continuaremos
num estado de barbárie semicivilizada. Pelo menos é assim que defino a
perpetuação do domínio de um lado e, de outro, da servilidade. Pois a
degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor.
Atenciosamente, Virgínia Woolf."Para quem tem vontade de conhecer mais sobre críticas tecidas pela escritora a às condições dela enquanto mulher e escritora e sobre constrições sofridas por qualquer mulher de sua época, recomendo a leitura de "Profissões para mulheres e outros artigos feministas" (2012), publicado pela L&PM Pocket.
06 dezembro 2013
08 novembro 2013
como é fácil se equivocar e chamar de sagacidade suspeitas sobre o sentido que o outro dá às coisas... ações são sempre pontinhas de iceberg de subjetividades que cada um traz à visibilidade do jeito que lhe é possível ou oportuno... suspeitas são suspeitas e sagacidade é conseguir perguntar ao outro se fazem sentido as elocubrações. o resto é delírio, que pode ou não servir ao deleite.
14 julho 2013
impermanências
“Quando
um fio da vida é atravessado pelo
fio de metal e nele se perde,
a temperatura mingua
E mingua também a sede e a dor
O movimento é só tremor
A emoção não se representa
Nada pode ser sentido
O tempo então perde a sua duração
Não corre
Não flui
Não passa mais
Viscoso e profundo como um beijo
na boca de quem já morreu”
Christine Greiner
fio de metal e nele se perde,
a temperatura mingua
E mingua também a sede e a dor
O movimento é só tremor
A emoção não se representa
Nada pode ser sentido
O tempo então perde a sua duração
Não corre
Não flui
Não passa mais
Viscoso e profundo como um beijo
na boca de quem já morreu”
Christine Greiner
11 maio 2013
se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida
(...)
Perdi
alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária,
assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me
impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira
perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que
nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso
caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela
que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me
procurar.
Estou
desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a
covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la –, na
minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não
sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que
provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja
de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de
pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava e nem mesmo
sentia o grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de
pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e
agora? Estarei mais livre?
Não.
Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por
objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que
encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de
entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá
essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse
para o quê.
Ontem
no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver
coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho
medo de viver o que não entendo – quero sempre ter garantia de pelo menos estar
pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se
explica que meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não
há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir
vivendo o que for sendo? Como é o que eu pensava e sim outra – como se antes eu
tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?
E
uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia
estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o
medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele
está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me
era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.
De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo
modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo?
Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela
probabilidade.
(...)
A paixão segundo G.H.
Clarice Lispector
p.12
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