“Renunciar a si mesmo, não significa para a mulher católica com formação universitária, despersonalizar-se para sumir no nada dos hindus ou no coletivismo dos russos, antes é entrega ao Ser (Deus), maximização da pessoa para além dela, rompimento dos grilhões da personalidade para abrir-se à amplidão do ser (ser sobre-humano de verdade) e levar de volta às funções em prol das coisas (profissão), das pessoas (liderança), das almas (apostolado).” (Edith Stein, "A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça", p. 238)
07 março 2023
04 janeiro 2017
As linhas do mundo
Compreendo que o meu mundo celestial é a escrita. Quando quero explicá-lo como ciência celeste, já não compreendo; mas sei que esta afirmação é verdadeira e que deve corresponder-se com o acto de escrever, porque só ele é o reflexo do meu vulto presente.
A escrita do Anjo, o Anjo da escrita são a minha própria matéria corporal traduzida em pensamento.
Ao fazer o mesmo caminho - o caminho do pinhal - perguntou: Por que é que meu pensamento é introverso ____ e não tem corpo? Onde está o corpo do meu pensamento?
Desejava ardentemente fazer uma história de afectos com ele - uma narrativa sui generis - e não sabia se sentia de modo íntimo, ou se pensava.
A luz era irradiante - luz marinha do Sol.
Apaixonara-se, certamente, pelo pensamento em corpo, de Hölderlin.
(Maria Gabriela Llansol)
07 setembro 2016
Comecei a aula com medo da escuridão do meu olho esquerdo, de onde brotavam dimensões ortogonais, irreconhecíveis. Terminei a aula com os dois olhos iluminados, com um campo de visão ampliado.
Foi prazeroso e importante sentir que era um canal que dava passagem ao movimento. Era o momento em que não era eu dançando, mas algo que se relacionava com o movimento e com o ambiente. A expressividade criava uma espiral com possíveis espectadores: seriam eles os que iriam conferir sentido, ordenar signos, elaborar possíveis narrativas, se relacionar com o que pudesse emergir de sensações, sentimentos, paixões ao me ver dançar. Não eu. Eu me movo, com a abertura necessária e honesta para estar em relação com o ambiente. Não para seduzir. Para estar.
Se se tratasse de mim, das minhas neuroses, cairia em dores das minhas relações amorosas frustradas. O movimento que acontecia em mim, enquanto me sentia um canal que dava passagem a ele, tinha outro sabor. Um sabor de presença.
09 maio 2016
o absurdo
transformar-me no outro
comer e me lambuzar do outro irresistível
a circunferência do fundo dos olhos
olhar desde essa convexidade é conseguir aceitar a tristeza, aceitar o tempo das coisas
não amargar - a implicância, o ressentimento, a água parada no poço que ecoa o som daquilo que entra e não sai
09 setembro 2015
Depois de cinco goles de cerveja preta, que achou que tinha combinado
bem com a noite enevoada, pouco fria. Depois da desistência do samba e
de uma viagem entediada de ônibus, percebeu que era só isso mesmo:
quando não tinha problema os inventava. Por isso o punho vermelho,
sangue retesado, marcas do não do pai. Por isso a tentativa de socá-lo
feito briga de galo. Era porque o feriado tinha sido muito bom junto
deles. Os dois, a mãe também, beliscos na bochecha. Mas, alto lá, que em
segundos eles poderiam definir todos os sentidos daquele fim de tarde
no prédio panorâmico cinco estrelas da prima rica, onde sobrava tudo
menos senso. De medo, soprou maldito espanto. Exclamações em vez de
vírgulas. Sangue, em vez de saliva.
22 julho 2014
divórcio
"Quanto ao destino da potência de resistência, sua dissociação das sensações a impede de reconhecer aquilo que a convoca: a crueldade inerente à vida que destrói formas de existência a cada vez que isso se faz necessário. Assim, não tendo como situar a causa do mal-estar, a subjetividade é tomada pelo medo e o desamparo e, para aliviar-se, projeta no outro a crueldade da vida e a confunde com maldade. A força de resistência é então capturada pela forma dialética, e passa a exercer-se como luta entre opostos: cada um reivindica para si o poder do bem e fixa o outro no lugar do mal, contra o qual deverá ser investida a força de resistência. Neste tipo de exercício da política, que se transforma em luta entre o bem e o mal, seja qual for o lado vencedor, o resultado é um só: quem vence é a força do conservadorismo, fruto do temor à crueldade; quem perde é a vida cujo fluxo fica travado, quando ela não é concreta e irreversivelmente interrompida pelo extermínio, em nome de uma configuração de mundo tomada como a verdade, configuração que, por supô- la verdadeira, se quer conservar. É o mundo do consenso – mundo fusional sem alteridade, sem resistência, sem criação: em suma, sem vida – cuja forma paroxística é o totalitarismo, seja ele de Estado ou de Mercado."
(resistência e criação: um triste divórcio. Suely Rolnik, p. 2 >>>>>http://www.pucsp.br/nucleodesubjetividade/Textos/SUELY/Divorcio.pdf)
09 junho 2014
05 maio 2014
"(...) A dança recolhe os fragmentos caóticos do cosmo e do corpo e dá-lhes um sentido originário imanente à própria dança, que, produzindo este sentido, o fará ser rememoriado pelo mito, se concordarmos com Fernand Robert em La Réligion Grecque, que afirma os mitos serem enredos gerados após as ritualizações, às quais se adequam, para fornecer uma narrativa àquilo que já se praticava."
(Breve história do corpo e de seus monstros - Ieda Tucherman, p. 29)
24 abril 2014
De tudo fica um pouco
o que fica?
fica eu mesma com as questões que achei que o outro, que chamei de amor e que, por muito tempo, começou a ser uma extensão da minha consciência narcisa, minha prótese, fosse resolver para mim.
já faz um tempo que não consigo superar as "simbioses" e "máquinas celibatárias", meus esconderijos.
"o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato, essa é uma das razões pela quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância." (WOOLF, 1931)
fica eu mesma com as questões que achei que o outro, que chamei de amor e que, por muito tempo, começou a ser uma extensão da minha consciência narcisa, minha prótese, fosse resolver para mim.
já faz um tempo que não consigo superar as "simbioses" e "máquinas celibatárias", meus esconderijos.
"o que é uma mulher? Juro que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato, essa é uma das razões pela quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da maior importância." (WOOLF, 1931)
20 abril 2014
uma arte
"A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério."
(Elisabeth Bishop)
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério."
(Elisabeth Bishop)
18 abril 2014
"Preciso falar de
uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para
entender, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um
romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer
que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele
precisa se induzir a um estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga
com toda a calma e regularidade. (...) para que nada venha a romper a ilusão em
que vive – para que nada incomode ou perturbe os misteriosos movimentos de
farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas
daquele espírito tão tímido e esquivo, a imaginação. Desconfio que seja o mesmo
estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me
imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem
uma moça sentada com uma caneta na mão, passando minutos, na verdade horas, sem
molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é
alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão.
Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo
submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a
experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens
que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça. Um tranco puxou a imaginação.
Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes
maiores. E então bateu em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada,
tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do
sonho. E de fato ficou na mais viva angústia e aflição. Falando sem metáforas,
ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela,
como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe dizia que os homens ficariam
chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala
de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não
podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguiu mais
trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que
escrevem – ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois,
embora sensatamente os homens se permitam grande liberdade em tais assuntos,
duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a
mesma liberdade nas mulheres."
(Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Virginia Woolf. pp. 15-16)
09 abril 2014
"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.
Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco
meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se
é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa
investida do tempo que nos acomete às vezes na primeira juventude, nos anos
mais festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi apossar-se dos
meus traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, aumentando o tamanho
dos olhos, fazendo mais triste o olhar, mais definida a boca, marcando a testa
com rugas profundas. Não tive medo e observei o envelhecimento do meu rosto com
o interesse que teria dedicado a uma leitura. Sabia também que não estava
enganada, que um dia ele ficaria mais lento, tomando seu curso normal. As
pessoas que me haviam conhecido à época de minha viagem à França, quando eu
tinha dezessete anos, ficaram impressionadas quando me reviram dois anos mais
tarde. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do
que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele.
Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o
contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído."
(O amante - Marguerite Duras)
17 fevereiro 2014
02 fevereiro 2014
A degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor
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Em 1920, o romancista inglês Arnold Bennett publicou uma coletânea de ensaios chamada "Nossas mulheres: capítulos sobre a discórdia entre os sexos", na qual defendia que "as" (artigo definido e no plural, enquanto o título apresenta o pronome possessivo) "mulheres" eram intelectualmente inferiores aos homens. Um dos argumentos era o de que o número de mulheres expoentes na literatura e artes em geral era muito inferior ao número de homens que se destacavam.
Para quem tem vontade de conhecer mais sobre críticas tecidas pela escritora a às condições dela enquanto mulher e escritora e sobre constrições sofridas por qualquer mulher de sua época, recomendo a leitura de "Profissões para mulheres e outros artigos feministas" (2012), publicado pela L&PM Pocket.
Em 1920, o romancista inglês Arnold Bennett publicou uma coletânea de ensaios chamada "Nossas mulheres: capítulos sobre a discórdia entre os sexos", na qual defendia que "as" (artigo definido e no plural, enquanto o título apresenta o pronome possessivo) "mulheres" eram intelectualmente inferiores aos homens. Um dos argumentos era o de que o número de mulheres expoentes na literatura e artes em geral era muito inferior ao número de homens que se destacavam.
Por sorte, Virginia Woolf já existia nessa época e não conseguiu se calar diante de tal afirmação.
Selecionei a última frase de uma
tréplica da escritora, publicada no jornal New Statement,
que, para mim, demonstra o quanto essa mulher foi sábia ao usar seu talento em se comunicar.
"(…) o que é necessário não é
apenas a educação. É que as mulheres tenham liberdade de experiência, possam
divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças (…); que
todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo
de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos
homens e, como eles, não precisem recear o ridículo e a condescendência. Essas
condições, a meu ver, muito importantes, são dificultadas por declarações como
as de Falcão Afável e Mr. Bennett, pois para um homem ainda é muito mais fácil
do que para uma mulher dar a conhecer suas opiniões e vê-las respeitadas. Não
tenho dúvidas de que, caso tais opiniões prevaleçam no futuro, continuaremos
num estado de barbárie semicivilizada. Pelo menos é assim que defino a
perpetuação do domínio de um lado e, de outro, da servilidade. Pois a
degradação de ser escravo só se equipara à degradação de ser senhor.
Atenciosamente, Virgínia Woolf."Para quem tem vontade de conhecer mais sobre críticas tecidas pela escritora a às condições dela enquanto mulher e escritora e sobre constrições sofridas por qualquer mulher de sua época, recomendo a leitura de "Profissões para mulheres e outros artigos feministas" (2012), publicado pela L&PM Pocket.
06 dezembro 2013
08 novembro 2013
como é fácil se equivocar e chamar de sagacidade suspeitas sobre o sentido que o outro dá às coisas... ações são sempre pontinhas de iceberg de subjetividades que cada um traz à visibilidade do jeito que lhe é possível ou oportuno... suspeitas são suspeitas e sagacidade é conseguir perguntar ao outro se fazem sentido as elocubrações. o resto é delírio, que pode ou não servir ao deleite.
14 julho 2013
impermanências
“Quando
um fio da vida é atravessado pelo
fio de metal e nele se perde,
a temperatura mingua
E mingua também a sede e a dor
O movimento é só tremor
A emoção não se representa
Nada pode ser sentido
O tempo então perde a sua duração
Não corre
Não flui
Não passa mais
Viscoso e profundo como um beijo
na boca de quem já morreu”
Christine Greiner
fio de metal e nele se perde,
a temperatura mingua
E mingua também a sede e a dor
O movimento é só tremor
A emoção não se representa
Nada pode ser sentido
O tempo então perde a sua duração
Não corre
Não flui
Não passa mais
Viscoso e profundo como um beijo
na boca de quem já morreu”
Christine Greiner
11 maio 2013
se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida
(...)
Perdi
alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária,
assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me
impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira
perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que
nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso
caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela
que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me
procurar.
Estou
desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a
covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la –, na
minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não
sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que
provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja
de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma ideia de
pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava e nem mesmo
sentia o grande esforço de construção que era viver. A ideia que eu fazia de
pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e
agora? Estarei mais livre?
Não.
Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por
objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que
encontrar um meio de saída. Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de
entrada? Oh, sei que entrei, sim. Mas assustei-me porque não sei para onde dá
essa entrada. E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse
para o quê.
Ontem
no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver
coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho
medo de viver o que não entendo – quero sempre ter garantia de pelo menos estar
pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se
explica que meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não
há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir
vivendo o que for sendo? Como é o que eu pensava e sim outra – como se antes eu
tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?
E
uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia
estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o
medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele
está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me
era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.
De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo
modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo?
Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela
probabilidade.
(...)
A paixão segundo G.H.
Clarice Lispector
p.12
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