27 janeiro 2012

francisquito

É certo que tenho mania de traçar conexões entre qualquer coisa que me aconteça, mas tem momentos em que elas simplesmente aparecem.
Assim foi com o Francisquito, vendido na padaria Pan Frigo (sim, estou falando desde o Brasil, ni de la frontera son, hacen parte de una ciudad peculiar del pais, Cuiabá, por hacer parte hace muchos y muchos años de la historia de explotación de oro de los portugueses, paulistas y españoles que influenciaron, además de la cultura colonial, el idioma y la manera de ser). 
Presente da madrinha que pesou 222 gramas na mala, custou R$6,66 e vence no dia 02/02/2012.
Que seja boa sorte!



19 janeiro 2012

chama

Sim, sim, eu sempre estive certa.
Entrar nesse buraco da minha pele seria mesmo entrar em buraco sem fundo, sem fundo, com bifurcações e nenhum sentido, com sentido, mas nenhum que me sacia e que demanda sempre mais e mais atenção e nenhuma companhia além do meu próprio umbigo. Era isso, era esse o meu terror, o meu desejo, a minha lascívia. E agora que a ferida está aberta, e agora que o entorno está esvaziado do vazio de que eu preciso, minha pele está pronta pra virar fogo e se transformar em chamas.
Alguém me chama. Alguém me chama?

17 janeiro 2012

ao lote #1

Só a reconheço quando já me tomou conta. Órgãos quentes, corpo aberto para o que me engradece e o que me destroi. Fazer parte do processo seletivo de vocês me deixou nesse estado apaixonado, sensível, feliz por estar perto de pessoas colocando em prática ações e ética de relações em que eu acredito, me fez perceber como sendo conduzido dessa forma realmente o ambiente de trabalho fica mais prazeroso, mesmo esse sendo um ambiente em que a competição esteve presente, mas não prevaleceu.
Pena que toda a paixão virou gripe (!) e não consegui aproveitar o último dia de seleção. Parecia que não ia me aguentar em pé e, de fato, não me aguentei.
Uma pena não ter sido selecionada para os laboratórios, mas foi uma oportunidade pra acompanhar mais de perto o trabalho de vocês, por meio das "janelas", dos ensaios abertos, e de outras apresentações.
Parabéns à equipe e bom trabalho!

Luiza Rosa.

18 dezembro 2011

ela era cheia de vida

É muito bom estar perto de alguém feita de entusiasmo.
Ela transbordava vida, ria e cantava, e também brigava, porque ela era cheia de opinião, com algumas eu concordava. Ela sabia ler sinais da vida, na lista telefônica, na televisão, qualquer lugar era lugar para se encontrar com o seu Deus, que lhe sussurrava soluções para os contratempos do dia-a-dia. Ela era generosa, se deixava  sentir apaixonada por pequenas coisas, o que a fazia ficar bem pertinho de todo tipo de arte, do canto, da música, gostava de dizer que um dia eu ia escrever um livro. Ainda vou escrever, tia, e vou dedicá-lo a você.
Que bom que fui sobrinha-neta da minha tia Chiquinha. Desta tarde em diante não vou mais conseguir ouvir sua voz. Já estou com saudade, mas feliz por ter sido tocada pelo entusiasmo dela, que me incentivou a seguir tendo sonhos distantes, que ficavam cada vez mais próximos e se transformavam, viraram outros sonhos, e me mantém viva.

24 novembro 2011

travessias de um cartógrafo

"Mas, como um itinerário se torna um lugar vazio se ninguém anda por ele, proponho-me nestas páginas, descrever minha própria travessia, nada linear, povoada de não poucas dúvidas, ainda que secretamente guiada pelo convencimento de que a perda de certas seguranças era e continua a ser fundamental para que se possa ouvir o som das novas situações e dos novos problemas."

(Ofício de Cartógrafo, Martin-Barbero, 2004, p. 123)

23 setembro 2011

18 agosto 2011

cinza.
cinzaahhhh...coff.

18 junho 2011

arquipélagos e corações partidos

O problema da especialização é porque a resolução dos problemas nunca vai se dar a partir apenas de um viés. Não adianta uma pessoa especialista em segurança pública propor resoluções pra violência que envolve o ambiente e as pessoas usuárias de craque na região central de São Paulo só pelo viés da segurança pública, ou do direito, ou da polícia, porque é um problema que envolve muitas relações sociais e afetivas, o que cada um daqueles envolvidos pensa sobre si e sobre a vida, as frustrações, as estratégias precárias de sobrevivência, de percepção de si e de percepção de si em um contexto social mais amplo. Uma pessoa que cheira craque todos os dias não é só "drogada", essa é uma das ações dela no dia-a-dia. Ela também exerce papeis na família, escola, amigos, instituições religiosas. O que ela acredita que ela é? Em que ela acredita? O que ela quer? Como ela lida com as constrições que todo mundo recebe todo dia? Quem acredita em liberdade como sendo o presentinho que todo mundo ganha de fazer o que quer, como quer, sempre, acaba se revoltando ainda mais, porque é impossível ser inteiramente livre.
Pra realmente haver uma tentativa de desanuviar a montanha de violências que envolve a população de centenas de pessoas que diariamente contribuem para que a Cracolândia continue a existir precisaria de uma ação que envolvesse não só policiais em contato direto com os traficantes e usuários, mas os familiares (deve ter gente que nem tem família ou que fugiu da família por ser ela emanadora de violência ou por medo de retornar depois de algum grande erro que tenha cometido ou por medo admitir fracasso no american dream que a cidade de São Paulo representa pra muita gente no Brasil e na América Latina).
Fato é que muita gente que não tem a ver diretamente com o consumo de drogas, mas que vive ali nessa região, tem sofrido com essa população que invade esse lugar todas as noites.
Deve ser uma cena bem triste.
Pode ser que esteja romantizando (deixando mais pesado do que realmente é).
Mas ver todos os dias gente morando na rua, crianças estateladas no chão embaixo do sol ou nesse vento frio durante o dia, parecendo mortas em vida, é muito foda. Uma situação tão antiga e que, uma opção de amenizar isso, os albergues, são desativados pelo prefeito da cidade, não dá pra entender onde que se quer chegar e se dá pra acreditar em alguma coisa nessa vida ou se tudo são burocracias e instituições públicas recheadas de pessoas que, por colocar prioridade na preservação de suas vidas e confortos, deixam sempre pra segundo plano posicionamentos que podem causar conflitos mas que podem levar para alguma ação que realmente mude alguma coisa.
E isso me faz lembrar que a modernidade, além de todas as coisas boas e ruins e mais ou menos ou indiferentes, trouxe a necessidade da gente se auto-preservar (em outros termos, fez emergir uma política diretamente ligada ao corpo: a biopolítica). Se a gente precisa se auto-preservar, segurança é a menina dos olhos. Em nome da segurança a gente faz e deixa de fazer muita coisa e de repente nos vemos uns bundões sem conseguir sair de uma redoma que a gente cria cotidiana e diariamente. É muito difícil se auto-preservar sem deixar bem clara uma fronteira entre si e essas pessoas que todos os dias se drogam no centro da cidade (eu-eles) - distinções territoriais. Difícil também se auto-preservar provocando conflitos que podem levar a elucidações.
Ao mesmo tempo, como não ficar indignada com alguém que quer se auto-destruir? E mais indignada com quem, para se auto-destruir, coloca em risco a vida de outras pessoas?
Pode ser que seja uma questão de vida, ou de uma questão de morte em vida. Se eu for levar em consideração a frase que um amigo me mandou hoje por e-mail, de que “morte não chega com o fim da vida, mas sim com o fim da vontade de viver”, pode ser que os usuários de craque sejam mesmo mortos-vivos para esse tipo de vida que a gente quer acreditar que é melhor pra se viver.
E não conseguir acreditar que esse tipo de exclusão e esse tipo de cegueira em relação a pequenas ações que poderiam amenizar ou transformar isso tudo me deixa muitas vezes sem vontade de viver.
Mas ser agente e receptora de violência todos os dias me deixa numa situação menos utópica, que me dá pernas pra seguir em alguma direção que não a contemplativa.
Acho que eu alterno morte e vida assim como um pêndulo. Às vezes morta-viva, às vezes viva-viva, porque acredito e desacredito nas coisas como se fossem uma massa una, e é aí que me vejo por uma perspectiva unificante, e é disso que eu falo no começo. Sou por muitas perspectivas e o pêndulo é um erro recorrente. Ou tudo ou nada. E considerar o mais ou menos é continuar a perceber as coisas como se fossem lineares, porque fica no meio do caminho, entre dois pólos. São muitos pólos, uma constelação.
Boto fé na pluralidade sem querer contaminar esse discurso que está influenciado pelas ciências humanas, pela dança, pelas artes, pela minha vivência cotidiana de mulher de classe média, heterossexual, migrante do Mato Grosso do Sul para a cidade de São Paulo, por um sentimento religioso. É guiado por uma paixão, mas que aceita restrições de fluxo contínuo, porque sou fragmento mesmo, a gente é um monte de ilha junto. Perceber as ilhas pela perspectiva do mar (e ser arquipélago só é possível por um mesmo mar que envolve todas as ilhas e que está sempre em movimento) pra mim é perceber uma faísca pra continuar a acreditar na vida e continuar a viver com vida.
Meu partido é do coração partido. Partido em milhares. Cada parte uma parte e também coração.

(partido do coração partido da música, foi uma lembrança ativada pelo post no blog da Camila, que eu nunca deixo de acompanhar)

05 junho 2011

pra virar pássaro

Pra virar pássaro
Só precisa tocar a pele de leve ou deixar alguém fazer por você.
Bolinhas vão se disseminar pela superfície lisa.
As penas estão prontas pra nascer.
O próximo passo voou. Na imaginação.
E transformou o pássaro em moça feliz.
Anjo asa a gente.

30 maio 2011

saudade

Kenji. Paranapiacaba, 2011.

Nesse fim de semana de novo senti a saudade me persuadir. Fiquei nesse vão que me faz lembrar que eu sou, além das pessoas que eu amo, indivisível (indivídua), apesar da minha aptidão pra esparramar. Integrando pelo menos não corro o risco de me dissolver até virar infinito.
A saudade me fez viver lembranças e lembrar do abandono e assim, quatro elementos fizeram sentido juntos. Dois por acaso, dois por insistência.
Saudade, memória, lembrança e abandono e quatro interpretações.

II.
Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:
quando cheias de areia de formiga e musgo - elas podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)

(Manoel de Barros, livro sobre nada, 2004, 11a. ed.)




“instabilidade e criação coletiva no espetáculo me=morar”
Neste artigo contextualizo a criação coletiva do espetáculo me=morar: o corpo em casa, elaborado pelo Coletivo Corpomancia em uma casa da vila dos ferroviários de Campo Grande (MS), em 2009 e 2010 e transposto para a videodança em 2011, e a relaciono com o paradigma da imunização, categoria criada por Roberto Esposito com o intuito de preencher lacunas deixadas por Foucault nos estudos sobre biopolítica, para tecer uma reflexão sobre tensões políticas contidas nesse movimento, do qual fiz parte. Me=morar... foi buscar num lugar que cheira tradição na cidade de Campo Grande húmus pra criar uma dança articulada à realidade dos intérpretes e criadores, com o objetivo mesmo de experimentar uma dança que não cede à tendência de se deixar coreografar por tradições hegemônicas da dança contemporânea do Brasil, apesar de dialogar com elas, ou de se relacionar verticalmente com uma técnica por adequação. A estratégia foi a de criar coletivamente a partir da interpretação dos cinco sentidos em contato com o ambiente da vila dos ferroviários. A motivação não tinha rosto nem chão, mas tinha limites: dos próprios corpos, da proposta, do coletivo, do que a casa nos oferecia, do valor do financiamento e do tempo. A temática caiu como luva a esse desejo de "apropriação" porque relacionou a memória do corpo com ícones do passado da cidade, para gerar uma continuidade a partir de um comum em ruínas e abandono. Em vez do centro estar no meio do palco, ou no centro econômico do país, esteve no corpo dos dançarinos e em uma rua estreita de paralelepípedos escondida entre as ruas largas, retas e planejadas de asfalto de Campo Grande. Alimentou-se de um passado não para transformá-lo em típico, mas para mostrar que está vivo, em movimento, em transformação permanente, porque abandono é a memória que ainda não soube alinhavar as fragmentações e contradições que nos constitui.

02 maio 2011

fragmental

O fragmento dura até o alcance de um objetivo, mas a vida dura mais e engloba mais do que algumas metas e está além de qualquer controle. Narrativa acaba, mas vida insiste em seguir. Alcançada uma meta, parte-se para outra, mediada ou não por intervalos de preparação, descanso, vazio, obsessão. Como se a vida só fizesse sentido em experimentação porque o sentido que a antecipa já não encanta nem sacia mais. Posso fazer o que eu quiser, mas tem algumas combinações que podem não dar certo e, por mais que não seja linear nem causal, alguns fatos de agora podem desandar toda a narrativa depois. Porque tem coisas que a gente não esquece. O artesanato constante fica no fazer molduras. Mas a moldura nem sempre alcança tudo o que a gente quer, ou alcança mais do que a gente gostaria, e o um fica parecendo dois, porque a gente também está além de qualquer controle de si sobre si mesmo como o outro sobre si e o si a partir do outro. Ao mesmo tempo em que é fluxo é subjugação em jogos de espelho e repulsão. E há influências. Porque as porteiras não fecham nunca.

Escrevi incentivada, dentre outras vivências, pela leitura desse fragmento:



“Porém a nós, a nós sem dúvida – resta falar dos fragmentos do homem fragmentado, que perdendo suas crenças perdeu sua unidade interior. É dever dos poetas de hoje falar de tudo que sobrou das ruínas (...) E, se alguma alteração tem sofrido a minha poesia é a de tornar-se, em cada livro, mais fragmentária. Mais obtida por escombros. Sendo assim, cada vez mais o aproveitamento dos materiais e passarinhos de uma demolição.” (Manoel de Barros, Gramática expositiva do chão – poesia quase toda, 1990 apud O meio é a mestiçagem, 2009)

07 abril 2011

solidão, porque a arte pede isso da gente

Leve essa sensação pro seu dia. Minha impressão era justamente a de que aqueles movimentos haviam brotado porque são latentes na maior parte da minha vida. Depois fez muito sentido derrubar a fronteira. "Solidão, porque a arte pede isso da gente, em um túnel longo, choveu em cima e algumas gotas conseguiram se infiltrar e chegar ao chão, algumas tocaram você." De olhos fehados minha solidão espiralou e se integrou ao entorno. Que é diferente de esparramar e tem a ver com respeito. Obrigada, Sandro.

20 março 2011

velocidade

Hoje tive uma surpresa ao abrir minha caixa de e-mails. Um gajo simpático que já o chamo de amigo, o Cleyton Boson, escreveu o poema aí de baixo, disse que lembrando da minha alegria que aqui em sampa é passageira, mas sempre retorna.
Lendo, consigo ouvir o sotaque goiano. O enfrentamento das bases instáveis da metrópole e de qualquer que seja o lugar de um migrante, viraram aventura fofa pela cadência e trágica pelo destino que tomam os acontecimentos.


Na cidade de São Paulo
a velocidade desenha as pessoas:
seu rosto lembra outro rosto que não sei lembrar.
Cupido é atropelado nos sinais de trânsito
ou despenca dos arranha-céus se esfacelando na multidão.
Despejado por não ter avalista,
o Amor mora de favores nas transmissões via satélite.
Na galeria paulistana,
A velocidade inventa a felicidade
em desvarios de concreto, vidro e credit cards.
Ela passeia na Paulista envergando um Giorgio Armani
e faz programa de televisão entrevistando celebridades que vão morrer no anonimato.
Na grande São Paulo,
O torvelinho metropolitano
elabora um novo tédio,
que estrangula a novidade segundos depois dela ter nascido.

(Velocidade, Cleyton Boson)

09 março 2011

no meio de dois, só um

São Paulo, o lugar das intermediações, das gradações que extrapolam dicotomias (entre santa e puta há milhões de possibilidades), também guarda, bem guardadinho, uma dualidade com pouco esticamento, que só dá pra escolher ou um ou outro: ou se está em companhia de um monte de gente, tricotando a rede interminável de novas e novas relações entre as pessoas que já se conhece e que está por conhecer e os compromissos que a manutenção de cada laço depreende, ou se está só, num apartamento que guarda a potência de ser preenchido por pelo menos mais quatro pessoas e que no momento tem uma só, em silêncio apreensivo, denso, ouvindo a janela tremer apalpada pela brisa.

03 março 2011

especialistas

Semana passada, já incomodada com a sensação de que aqui em São Paulo a tolerância de ouvir é incrivelmente mais baixa que a necessidade de expressar, entrei no elevador e tive o seguinte diálogo com uma senhora que entrou depois de mim reclamando:
- Que calor!
- É, e aqui a gente nem percebe, mas anda pra caramba.
- Nossa, muito calor.
Cidade de especialistas em produzir, a gente (em muitas situações já me sinto contaminada) não ouve o que não quer ouvir. A moldura parece mordaça só que nos próprios ouvidos e nas bocas do outro, alguém.
É cansativo se relacionar com tanta gente o tempo todo. O corpo acaba tendo que selecionar mais pra sobreviver. Tem tanta coisa ruim misturada às coisas boas, e os processamentos são demorados, demora por vezes dias pra digerir que o policial na rua quase mirou seu rosto ao desarmar o bandido da moto ao lado da calçada. Estou começando a entender os fones de ouvido, o gesto blazé, o distanciamento como se fôssemos ilhas. Continuo preferindo pensar nas ilhas pelo ponto de vista do mar.

14 fevereiro 2011

carne barata no mercado

(roteiro de adaptação livre para o cinema do conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis)

Storyline: Cândido, com sangue nas mãos, dirigiu-se até o açougue do mercado municipal a fim de encontrar, finalmente, seu filho. Previa em mente a surpresa da família ao vê-lo retornar com, além da filha nos braços, uma dinheirama no bolso. – Onde está o bebê?, perguntou ao vendedor, que lhe respondeu: - Estava na barriga da preta que acabou de abortar.

****

Alvo e corpulento, Cândido nunca fora muito de amigos e pulava de trabalho em trabalho, não conseguia ficar muito tempo em um lugar só. O único emprego que o segurou por mais tempo era esse em que trabalhava atualmente: caça-prostituta. Era assim que ele mesmo denominava sua profissão. Na prática, corria atrás de profissionais do sexo que sumiam das casas onde trabalhavam, sem dar satisfação e geralmente devendo para seus donos, ops, empregadores (como se sabe, além de serem exploradas por seus clientes, são extorquidas por seus chefes, por isso as dívidas contínuas e intermináveis.).

O porte físico volumoso e a pouca experiência no exercício do pensar criticamente faziam de Cândido um excelente caçador de prostitutas. Para sua esposa, Clara das Neves, era um trabalho digno, não pensava em pormenores da violência que deveria envolver e, afinal, alguém tinha de fazer esse tipo de serviço, era importante colocar limites a compulsões da carne como as que essas pobres mulheres deveriam sofrer.

Formavam um jovem casal, com as alegrias e dificuldades dos recém-casados. Cândido já estava sendo pressionado pela tia de Clara, a aposentada Mônica, e pelo dono do apartamento onde moravam, para se engajar em algum outro emprego que pagasse os alugueis atrasados e que pusesse comida na mesa da família, que logo logo iria crescer – Clara estava para dar a luz a uma menina.

Cada vez menos prostitutas fugiam de seus empregos e cada vez mais caçadores de prostitutas surgiam na cidade. A concorrência aumentava e a renda mensal e honra masculina de Cândido diminuíam. Sua filha nasceu, mas a dificuldade em pagar qualquer coisa levou à família optar por deixá-la em um orfanato, um destino melhor que a fome.

No caminho ao orfanato, no início da manhã, Cândido recebe uma ligação: era um empresário dizendo que uma de suas melhores trabalhadoras havia fugido.

- Uma mulata de quase dois metros de altura.

Confiando na força e agilidade de Cândido o empresário lhe prometeu o dobro do que geralmente pagava para incentivá-lo a resolver com urgência aquele problema.

Cândido foi até o mercado municipal, próximo ao centro da cidade, onde desconfiava que ela poderia se abrigar e ficou observando o local durante longas horas. No final da tarde não conseguia nem desconfiar o paradeiro da mulher que o empresário descrevera por telefone. Murmurou para si e para o bebê em seus braços que o destino não queria que ele fosse mesmo um pai e se dirigiu a caminho do orfanato, o destino que havia programado quando saiu de casa pela manhã.

Saindo do mercado, em um corredor de barracas, avistou um vulto escorado em um balcão que logo desapareceu. Era ela! A mulata de dois metros que ele ouvira no telefone.

Deixou rapidamente sua filha em uma barraca próxima, pediu para o vendedor olhá-la enquanto resolvia um problema. Pegou a corda que levava no bolso da calça e disparou a caçar. A mulata percebeu que ela era o alvo daquele rinoceronte descontrolado e correu. Correu, se espreitou, mas sua agilidade estava comprometida pelo bebê que carregava na barriga. Demoradas duas horas, foi laçada pelo caçador e levada ao empresário, não sem se debater e xingar muito.
Enquanto esperava o empresário chegar para apanhá-la, o bebê não resistiu. O sangramento não estancava entre suas pernas, sentiu seu filho sair, não havia choro, ele estava morto. Cândido recebeu a gratificação e voltou contente à barraca onde havia deixado sua filha pensando:

– Graças a Deus que a puta fugiu, que tenho esses braços fortes e essa fúria no peito.

Já quase pulando no pescoço do vendedor ao sentir a ausência do bebê no balcão onde houvera deixado, Cândido perguntou:

- Onde está o bebê?

Foi então que o vendedor lhe respondeu com a raiva entre os dentes:

Estava na barriga da preta que acabou de abortar! Você acabou com a única chance que aquela coitada tinha de realizar o sonho de ser mãe e livre. Olho por olho, dente por dente, camarada. O que fizeste com o filho da outra o fiz com o teu.

Luiza Rosa

(para o curso literatura e cinema: intersecções - Memorial da América Latina)

13 fevereiro 2011

06 dezembro 2010

"A razão caminha mais, mas a emoção vai mais longe."

(Jesús Martin-Barbero em palestra na PUC, em 2003)

01 dezembro 2010

carta

(se fosse escrever uma cartinha pra família ontem, era isso o que teria escrito)

Queria dizer que foi tudo mto bem hj na facul. A apresentação foi tranquila, uma professora deu uns toques legais, mas o mais gostoso de tudo foi a sensação de ter amigos naquele curso. A tchurminha formou uma plateia simpática, sorrindo e desejando que todo mundo se desse muito bem. Não precisei nem de mãe, nem de pai, nem de nada doce pra me acompanhar a insegurança. Desde o abraço de oi, o aconchego de perguntas sobre citações na ABNT, de olhares cansados e à vontade ao chão, alternando o uso da tomada. Não tinha sensação de competição que fosse mais relevante que aquele calorzinho de solidariedade que de repente surgiu entre as pessoas daquela turma que conseguiu amansar um auditório e algumas dúvidas, querendo compartilhar alguma alegria tímida de estar fazendo o que gosta apesar disso significar às vezes, invariavelmente, esperar muito.
Um privilégio!

15 novembro 2010

"quando briga passa dias lamentando o episódio"

"Por que você deseja se superar continuamente? Por que rejeita os atritos? Por que insiste tanto em agradar?", indagava a analista. "Será que você não tem um lado sombrio? E, se tem, por que hesita em mostrá-lo?" Fernando saía arrastado do consultório. Quer dizer que a prepotência pode se travestir de eficácia e simpatia? A resposta ainda hoje o surpreende.

trecho de entrevista com Fernando Meirelles publicada na revista Bravo! (nov, 2010)
Por Armando Antenore

17 outubro 2010

quando os dentes se encaixam

Como se a pressão entre as arcadas superior e inferior fosse resolver alguma coisa, não importa chocolate, maçã, soja, sorvete. A necessidade é de me pressionar, de condizer com a mesma sensação sobre mim, apesar de não existente personificado em alguma coisa específica ela existe, esse material que é abstrato, pessoal. Objetivistas não conseguem enxergar ou a acham óbvia. Subjetivistas não estão nem aí. Sem o privilégio de ter nascido nem um nem outro, vivo a sujeição intensa que acabam nos dentes, na articulação têmporo-mandibular.

13 outubro 2010

em você, em mim

Trilha sonora: "Fidelity" (Regina Spektor)

Confeccionado por mim. Inspirado e dedicado a K.A.

30 setembro 2010

"Só usa a razão quem nela incorpora suas paixões"
(Um copo de cólera - Raduan Nassar)

28 setembro 2010

26 setembro 2010

enxurrada

Água. Muita água jorrando, se esparramando e tomando conta dos tornozelos, joelhos, quadris, bocas. Isso no final, porque começou com cheiro de mofo, cadeiras de plástico que escorregavam no chão de azulejo, colocadas em frente a um palco marrom, de madeira arranhada. Muitos corpos ocuparam o opereto de maneira previsível, vestidos previsivelmente e aplaudidos como havia de ser. A beleza se vestiu com blusa e calças largas, sandálias e bolsa transpassada, era um homem comum novamente, previsivelmente seguro, de perto engordado, com algum problema por de dentro, um problema grave. Minha pergunta foi respondida sinceramente com os olhos, a boca sorriu ironicamente e, como de rigor, respondeu com língua afiada alguma barbárie. Retrucava indiretamente, mas dizia que tudo estava bem, como havia de ser. Depois das palavras o ruído vinha das águas jorrando, jorrando e tomando conta do lugar e dos meus dedos, dos meus olhos, da roupa dele e do mau-humor que o vinha constituindo. Água que era conseqüência, mas queria pressentir que, logo em seguida, provocaria outra enxurrada de barbáries ambíguas, paralisantes.

22 setembro 2010

observação

Interessante receber um veredicto psicanalítico sem precisar pagar as centenas de reais que uma consulta desse tipo custa, mas tenho receio de que o sujeito do discurso esteja se olhando no espelho, em vez de sua janela.

01 setembro 2010

a vingança da cultura

"A revolução já não está na ordem do dia, mas a capacidade de fazer história está longe de ter desaparecido. Na perspectiva de vivermos melhor em conjunto, a cultura democrática, mais do que nunca, está em aberto e por inventar, requerendo que se mobilize a inteligência e a imaginação dos seres humanos".

(Gilles Lipovetsky - "A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada")

03 agosto 2010

carta crítica

"Procure e exerça a crítica, mas não se deixe esmagar por ela e não a exerça por mero prazer. Exerça-a com moderação e com ânimo de contribuir para o avanço dos conhecimentos e não para sobressair-se ou vingar-se. Lembre-se de que a crítica destroi o erro, mas também pode matar a verdade. Lembre-se de que a maior parte das pessoas vê com desconfiança as ideias novas. E lembre-se ainda de que, seja ou não justificada, a crítica não substitui a criação."


(Mario Bunge - Carta para uma futura epistemóloga em "Epistemologia")

03 julho 2010

em fluxo

De novo o fluxo por dentro era bem mais liberado que o de fora.

Uma hora e meia e os arquivos ainda não haviam sido transferidos da rede pro meu computador. E se minha vontade fizesse acelerar? Acelerou só meu metabolismo, que se expressava em cortes temporários de respiração, seguidos de respiração longa, solitária.

Meu almoço, uma esfiha de carne com conversa sobre a arte contemporânea de um pelego, ganhei de presente de uma companhia educada de olhar agudo, interrogafirmativo.

Os segundos pareciam deslizar. Não gotejaram nem um segundo e a baba grossa de tanta informação deslizante, escorreu, mas não deixei fazer com que me tirasse a noção de que cada coisa tem seu lugar, e as pessoas contam com a consciência disso, de minha parte.

O trânsito não estancou tanto quanto a transferência de arquivos, nem conseguiu me tirar do sério tanto quanto onde queria me fazer de forte ao lado da desfuncionária. “Silêncio, por favor...” foi o que me salvou. “Quis amar, mas tive medo...” também foi uma alternativa que aliviou e foi fácil parar em casa, pegar o irmão e descer meia quadra antes do lugar onde deveria estar quinze minutos antes de atravessar aquela esquina em que as pessoas esquecem a função das setas do carro.

Pela primeira vez me sentia à vontade em dizer o que me vinha à mente na frente de uma de minhas mentoras. Realmente o risco já não atormentava, afinal é daí que parte meus estímulos de pesquisa, de busca por entendimentos, estabelecimento de conexões. Minhas tradições, preconceitos. Também sou uma colcha de retalhos e todos os dias as conexões são refeitas, desfeitas, ficam um tempinho descansado em algum outro recipiente, que podia aliviar, mas às vezes não alivia.

O café e a miopia fizeram daquele momento mais especial como quando uma foto é mais interessante pelo desfoco que acentua o foco de um curto espaço daquele todo.

Voltei animada, pronta pra mais uma etapa do dia, que terminava pro movimento da Terra, mas não para o meu.

23 junho 2010

Mundo frágil

Outro escrito de alguns anos atrás..
Ando meio nostálgica. Ciclo mudando, pele, cheiro, texturas, cidades mudando..
Esse poema é de 2005.


Mundo frágil
De isopor e creolina
Figurado pela transparência
de um objeto que oculta a liquidez de sua origem

as fibras chegam a ranger os dentes que espetam.
as bolhas são destruídas
a violência do bico de um beija – flor
seca a pele de couro da rachadura
sem vestir nem viver

Vazão.
Haste da vantagem de se desprender
a condição inicial de conviver
a síncope da traição.
Reverência ao inconstituível.

Sem lugar e sem controle
A vida cresce na seringueira movediça
Atolada na lama do ressentimento
Do ideal inalcançável de beleza
De humildade
E ignorância

Vingativo
Vulnerável
Insuportável
Irresistível

Crueldade realista
Ou se move pelo desejo
Ou se é movido por ele.
Difícil distinguir:
realidade e fantasia
diabo satânico e pura humanidade
verdade e agressividade
a cor do céu quando se está apaixonada.

Sem vestir nem viver
Esconder seria uma arte
Não se importar
Se fechar para o mundo e suas idiossincrasias alienantes
Dividir o indivisível
Costurar os cacos de compaixão
De auto-estima
E sorrir

A tristeza não é uma forma de egoísmo!
Simplesmente vai e vem como os pés no chão
Que precisam se mover com seus movimentos inconscientes
Pra PODER andar.
E onde estão os pés?!
Embolados em uma borracha com tecido.
Ou acrílico, madeira, ferro, isopor...
Se esconder seria uma arte!?
Pois o sapato seria uma solução!

ELO
Escancarar
ver e enxergar
sem colocá-lo na divinição

29 maio 2010

numa noite de inverno..

Pra mim a descrição mais bela da leitura íntima de corpos.
Já faz um tempo que a degustei e sempre que retorno a ela fico encantada. Como é linda.
Deixo aqui pra compartilhar com vocês (Leitora e Leitor).

"Vocês estão juntos na cama, Leitor e Leitora. É chegado, enfim, o momento de tratá-los no plural, tarefa muito comprometedora, pois equivale a considerá-los um só sujeito. É a vocês que falo, volume não muito bem discernível sob esse lençol amarrotado. Quem sabe depois seguirão cada qual para seu lado, e a narrativa terá que extenuar-se manobrando alternadamente a alavanca de câmbio para mudar do você feminino ao você masculino; mas agora, em vista do fato de que seus corpos procuram encontrar, entre pele e pele, a adesão mais pródiga de sensações, transmitir e receber vibrações e movimentos ondulantes, ocupar os cheios e os vazios, dado que na atividade mental vocês também concordaram em buscar máxima concordância, agora se pode dirigir a vocês um discurso coerente que os considere uma pessoa uma e bicéfala. Em primeiro lugar, é preciso determinar o campo de ação ou o modo de ser dessa entidade dupla que vocês constituem. [...] Vocês certamente só existem um em função do outro; mas, para tornar tudo possível, seus respectivos eus devem não tanto anular-se quanto ocupar sem resíduos todo o vazio do espaço mental, poupar-se cada um à máxima taxa de juro ou gastar-se até o último centavo. Enfim, o que vocês fazem é muito bonito, mas gramaticalmente não muda nada. No momento em que mais parecem um vocês unitário, são dois vocês separados e mais fechados em si que antes. [...]
Leitora, eis que agora você está sendo lida. Seu corpo está sendo submetido a uma leitura sistemática, mediante canais de informações táteis, visuais, olfativos, e não sem intervenções das papilas gustativas. Também o ouvido teve participação, atento a seus arquejos e trinados. Em você, o corpo não é apenas um objeto de leitura: faz parte de um conjunto complicado de elementos, que não são todos visíveis nem estão todos presentes, mas que se manifestam em acontecimentos visíveis e imediatos: o anuviar-se de seus olhos, seu sorriso, as palavras que diz, seu jeito de juntar e separar os cabelos, de tomar a iniciativa e retrair-se, e todos os signos que estão nos confins dos usos e costumes, todos os pobres alfabetos por meio dos quais um ser humano acredita em certos momentos estar lendo outro ser humano. [...]
Ao contrário da leitura das páginas escritas, a leitura que os amantes fazem de seus corpos (essa concentração de corpo e mente de que os amantes se valem para ir juntos para a cama) não é linear. Começa de um ponto qualquer, salta, repete-se, retrocede, insiste, ramifica-se em mensagens simultâneas e divergentes, torna a convergir, enfrenta momentos de tédio, vira a página, retoma o fio da meada, perde-se. [...]
Caso se quisesse representar graficamente o conjunto, todo o episódio com seu ápice, seria necessário um modelo em três dimensões, talvez em quatro – não há modelo, nenhuma experiência é passível de repetir-se. É nesse aspecto que o abraço e a leitura mais se assemelham: o fato de que abrem em seu interior tempos e espaços diferentes do tempo e do espaço mensuráveis."

(trecho do livro Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino, p. 158 a 160)

02 maio 2010

do sofrido ao soft

Por ter, coincidentemente, assistido a esses dois videoclipes, um seguido do outro, percebi que, nos dois, os cantores conversam com um boneco, ao dizerem sobre a pessoa que amam. É... quando distante, o jeito é falar com representações.

"Crave" é ícone da minha adolescência, em que ficava sabendo das músicas de sucesso das baladinhas campo-grandenses, quando minha irmã (mais velha que eu) chegava em casa descrevendo as festas que ainda não podia ir.

"Fidelity" é fofa, como é os ambientes leves que ando percebendo em vários aspectos. Conheci por uma amizade nova, taurino como eu, e que me abriu horizontes audiovisuais e profissionais, ao dizer delicadamente com suas ações cotidianas: é possível, sim, ser um ser humano em uma instituição pública e não só mais uma peça da burocracia.

Abaixo vão os dois videoclipes, do sofrido ao soft, os extremos que vêm desenhando meu corpo esses tempos.

10 abril 2010

cristais de tempo

foto: Kenji Arimura

Volátil como momentos de equilíbrio, de inércia no deslocamento, um segundo paralisa, cristalizado no cartão de (da) memória.
Ainda bem que há quem saiba pescar e polir esses cristais de tempo presente, que nos fazem lembrar que apesar de o mesmo, nunca igual.

08 abril 2010

22 março 2010

Out.ono

Não pude deixar de colocar aqui essas coincidências de sentido (na minha percepção coincidem) entre texto, imagem e a nova estação em que estamos entrando.
A foto é do Kenji Arimura, o primeiro texto é do Yan Chaparro, o segundo de Gabriel García Marquez, a conexão é minha.

"As folhas das arvores desenham no ar composições que me levam a pensar o que elas estão querendo dizer. Observo meus poros absorvendo algum sentido que chega pelo vento. Uma conversa inicia, estamos grudados em meio do mesmo mundo, não temos escapatória, somos dois, uno possível que transcende o insuportável. (...) Minha pele esta grudada ao que envolve, posso enxergar meu próprio sangue nas fissuras deste vento que chega". (publicado no blog entrecomum.blogspot.com)

"No dia em que o matariam (...) tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branda, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros". (retirado de Crônica de uma morte anunciada)

12 março 2010

Let me sing you a waltz

Foto de Annie Leibovitz
A curiosidade é que foi tirada pouco antes de John ser assassinado, mas este fato chama muito menos a atenção que a sutileza de expressão de seu amor por ela, tão sutil que faz desabar qualquer tipo de proteção ou armadura. Como uma valsa que vai te tocando aos poucos, serena, e te envolve de tal forma que passos em sentidos opostos se transformam em rodopios pelo salão.
Combina com a música que acabei de ouvir e que coloquei aqui embaixo, trilha sonora do filme "Antes do pôr-do-sol", sequência do filme "Antes do amanhecer", ambos dirigidos por Richard Linklater, um lançado em 2004 e o outro em 1995. Tem simplicidade tocante parecida com a da foto.
Sugiro que ouçam experienciando a foto, que proporciona esse tempo lento de desfrutar uma coisa só que proporciona diversas sensações e pensamentos.

03 março 2010

palavra como isca

“Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se inscreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a.”
(Clarice Lispector)

04 fevereiro 2010

possibilidades narrativas

"A cultura (...) maneja símbolos capazes de encantar, humanizar e reconstituir possibilidades de vida"

(fragmento do texto-base da conferência nacional de cultura, em eixo sobre cultura e desenvolvimento sustentável em que coloca como íntima a relação que produções simbólicas e deshierarquização de valores mantêm com o pensar a segurança pública)

01 fevereiro 2010

Ela

Nela tudo era curvo. Cabelo, corpo, imaginação. A única linha reta era a lágrima, que caía pesada dos seus olhos, quando se sentava em uma das quinas de sua cama, e lhe pesavam as esquinas que havia no mundo.
Não era o fato de haver esquinas que lhe pesava, mas de quererem dissimular a sua existência.
Estes eram momentos em que não se encaixava. Como se estivesse a seguir a visão diagonal, em que o vão era o principal caminho, e não os objetos que fingiam terminar, ou começar, no decorrer da linha.
O vão é permanente e os objetos desaparecem com a velocidade do olhar, como quando ficamos na frente do ventilador a distrair e as hélices se transformam em massa gosmenta.

(texto que escrevi em 2007. Encontrei agora nas arrumações dos arquivos do computador..)

23 janeiro 2010

experiência

"A única verdadeira tradição é recomeçar tudo a partir dos seus próprios recursos"
(Carolyn Brown)

entre a precaução e a ousadia


Faz bastante tempo que só escrevo em meus cadernos. A caneta e o lápis estavam fluindo mais com meus absurdos criativos desses últimos tempos. Mas só tentativas, possibilidades. O blog parecia oficial demais pra ousar deixar essas ideias flutuando por aí. Agora mais à vontade com esse novo "padrão de movimento" vou soltando aos poucos, não as mesmas palavras, mas definitivamente influenciada pelas experiências por que passei e que transformaram minha narrativa.
Depois do "me=morar" eu era ação pura, um puro extremamente fluido, cheio de elementos diferentes, me dissolvia nas coisas e pessoas. A intensidade de sinceridade com o que vivia em cena transbordaram pra vida cotidiana, fato que poderia ser catastrófico, mas só me fez conhecer limites entre loucura e sanidade. O instinto de vida e de morte ali bem próximos, como aquelas 24h de diferença separadas por um abismo de centímetros de espessura, na “linha da data” (do lado das ilhas Fiji).
Entre a precaução e a ousadia, para viver precisava esquecer. Mas no meio da noite do dia 28 de dezembro, comecei a lembrar de muita coisa, muita coisa que precisava ser lembrada sempre, por isso escrever. 6h vi a manhã nascer e saí pra caminhar, pensando que a vida começava a ganhar muito sentido. Às 9h, no centro da cidade vendo armações de óculos, me surpreendo ao sair da loja. No mesmo momento em que meu corpo adormecia na sensação de que “voltara a viver” e que havia um sentido pra isso, sou atendida por uma vendedora chamada “Vida”. Inacreditável e incompreensível!! Minha única prova é o cartão da loja, que ela me deu assinado com seu nome.
Work in progress, contato improvisação e sincronicidade começavam a fazer muito sentido também. (Jung que fazia anos tinha o livro em casa, mas não conseguia ler, devorei em algumas horas). Era isso: sou uma narrativa e sentidos se conectam, o que é imprevisível, incompreensível em alguns momentos, tamanhas as coincidências que fogem do meu controle. Pensava ter controle sobre essas incrementações na minha narrativa, mas it flow, and I was letting it flow.
No dia 31 arrumei meu quarto. Troquei e criei lugares, adquiri e joguei coisas fora. Depois de 6 anos dividindo o quarto com minha irmã que há 3 meses se casou, ainda não havia conseguido me desvencilhar daquela sensação de coisa compartilhada, quando a gente espera o outro dizer alguma coisa pra depois agir.
"Ou me ensina ou eu faço sem nenhuma orientação!", tive que dizer ao meu pai com a furadeira na mão..rs Enfim um reconhecimento de autonomia. Patriarcado se fazendo presente no cotidiano da minha família: pai que nunca deixara a filha menina furar paredes e lidar com pregos. Minutos depois meu banheiro também já era outro.
Com meu quarto arrumado, andei pela rodovia. Me senti preparada pra viajar. E viajei.